sexta-feira, 11 de abril de 2014

Um dia virás comigo..

Deitados na cama, corpos ainda suados e sangue carregado de endorfinas, repousavam após mais um final de tarde de sexo. Ela fumava; ele, via uma qualquer notícia no telemóvel. Era quase sempre assim. Exceptuando raras vezes em que esboçavam uma tentativa de diálogo, o seu ritual não incluía muitas palavras.

Ela saiu da cama, beijou-o na face e perguntou-lhe se se queria juntar a ela num banho. Ele respondeu-lhe que não, que tinha de se despachar, que precisava estar noutro local dentro em breve. Pediu-lhe para ser ele a tomar banho primeiro. Ela anuiu - cabisbaixa -, acendeu mais um cigarro e foi sentar-se no sofá.

Enquanto ouvia a água a correr, olhava para as roupas espalhadas pelo chão. Começou a juntá-la e apercebeu-se que a sua vida também era assim: peças espalhadas ao acaso que ela tentava a todo o custo unir. Pegou na camisa dele, sentiu o perfume que ainda perdurava – aquele que lhe tinha oferecido aquando do seu aniversário – e não resistiu a abraçá-la contra si. Fechou os olhos e relembrou aquela mesma tarde, recordou a tarde anterior e todas as outras tardes que tinham passado juntos. Recordava, calorosamente, cada momento de entrega, cada beijo dado, cada gemido suspirado, cada orgasmo partilhado. Era feliz, naquelas tardes era verdadeiramente feliz. Naquelas tardes, ela era ela. Ela era quem gostava de ser. Ela despia o fato, despia-se de preocupações, despia-se dos preconceitos que uma sociedade obsoleta lhe impunha.

Sobre os jatos de água quente, ele observava-a pela fresta da porta da casa de banho. Conseguia-a ver no sofá, sentada e a abraçar a sua camisa junto ao peito, como se fosse um filho a chorar. Como ele a desejava! Como ele a admirava! Como ele a respeitava! Como ele a amava! Também ele era feliz naquelas tardes. Apenas naquelas tardes. Vivia todos os dias a contar o tempo que faltava para aquelas tardes. Mas, depois de partilharem os corpos, depois de serem amantes, depois dos fluidos libertados, quando chegava o momento da despedida, morria mais um pouco. Morria sempre um pouco no final daquelas tardes. Renascia sempre um pouco no inicio daquelas tardes.

Saiu do banho, foi ter com ela e vestiu-se. Não disseram uma palavra. Depois de vestido, beijou-a ternamente – como se aquece beijo valesse pelas mil palavras que lhe queria falar e não era capaz, não de novo – e, antes de sair, apenas de lhe disse “Até quinta”.

Quando a porta se fechou, na alma dela abriu-se mais uma ferida. Foi para o chuveiro, onde as lágrimas se diluíam com a água que lhe escorria corpo abaixo. Pensou em todas as promessas quebradas e em todos os planos adiados. Pensou em toda a felicidade que estava a desperdiçar por orgulho. Pensou no rapaz recatado que se transformava em homem dominador quando entregavam o corpo um ao outro. Pensou que aquele era o melhor sexo que já alguma vez tinha vivido. Pensou em tudo isto e chorou.

Secou o corpo e as lágrimas. Vestiu-se e maquilhou-se. Olhou para a cama em desalinho, inspirou fundo e sentiu o cheiro deles. Arrumou as suas coisas, saiu do quarto e apanhou o elevador. Entregou a chave na receção e saiu do motel. Enquanto esperava pelo táxi, sorriu ao pensar que para a semana voltaria a estar com ele. Agora, eram horas de ir para casa, onde o marido a esperava.


6 comentários:

  1. Pois o amor/desejo não escolhe estados civis... gostei desse final, anula basicamente a história toda, em termos de sentimentos que possam surgir. É aquele choque final da realidade...

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    1. Penso que os sentimentos estão lá todos - desejo, querer, paixão, amor - mesmo que no final não consigam estar juntos, ou um deles tenha medo de abandonar o que tem para ficar com quem realmente a faz feliz.
      E obrigado. :)

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  2. Admito que esperava outro desfecho. Até vim ver a medo. Desta vez gosto particularmente do que escolheste para ilustrar o post :)

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    1. Quem sabe se não farei outra história com o final que tu tanto querias! :) Que suponho seja sexo! :D

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  3. Bolas tinha passado por este post sem o ter visto. Li, melhor, li, reli e... fodasse

    quero um final feliz!!! Não tenho guito para ir ao cinema e QUERO AQUI FINAIS FELIZES tttssstt

    ADOREI o texto.
    Aperto bigodes!

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    1. hahaha Obrigado Baby.
      Também gostei muito de o escrever.
      Talvez para a próxima haja um final feliz. Desta vez, foi este que me pareceu o mais adequado. :)

      Beijinho

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Não é por nada, nem quero influenciar ninguém, mas diz que quem comentar neste blog, é uma pessoa espetacularmente espetacular!