segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Estranho Caso da Chave Saltitona

Capitulo XX


 
João já tinha decidido que teria de usar toda a sua lábia e charme para se safar daquela situação. Vendo bem, sempre foi assim que conseguiu ter sucesso com as mulheres, enquanto os seus amigos passavam as tardes a 'ler' as revistas da Gina. Já ele, conseguia, inclusivamente, manter namoros com duas raparigas ao mesmo tempo. Assim, quando ouviu aquela pergunta, a resposta foi automática:
 
Querida, se tu quiseres colaborar, posso-te levar a sitios onde nunca...
 
O estalo não o deixou terminar a frase. A sua expressão era um misto de espanto e excitação. Quando se refez e esboçou um sorriso, levou outro estalo. A cabeça rodou até não poder mais. Sentiu um ligeiro sabor metálico na boca. Ainda não refeito do segundo estalo e já um terceiro o estava a atingir, seguido de "João!", virando-lhe a cara para o outro lado. Durante a rotação, viu, pela primeira vez, a cara daquela mulher. Era a sua Maria. O seu cérebro começou num turbilhão, mas durou pouco tempo, pois novo estalo, seguido de "João!", fê-lo rodar novamente para a direita. Desta vez, a cara não era de Maria, mas sim de Elsinha. Novo estalo, novo "João!", nova cara, agora do seu amigo Bertolino. João não sabia o que se estava a passar. Seria efeito dos estalos, de alguma droga que lhe tinham dado. Com um novo estalo tudo começou a rodopiar. A sala onde estava contorcia-se, encolhendo a alta velocidade. Aquela mulher, aquela mulher sedutora assumia várias formas, sempre de ex-namoradas suas. A claridade que vinha da porta começou a inundar a sala até se tornar tão intensa que lhe feria os olhos. Fechou-os com todas as forças e, quando já não aguentava mais, abriu-os. A pouco e pouco toda aquela luz foi ganhando outras cores e outros contornos. Já não estava numa sala escura e amarrado. O que via era o azul do céu, o branco das nuvens e um par de ceroulas a esvoaçarem como uma bandeira ao vento.

João! João! João, pá! Ainda bem que acordaste. Estava a pensar que tinhas morrido. - Era Bertolino, que, debruçando-se sobre ele, lhe dava pequenos estalos numa tentativa de o acordar. - Aliás, nem sei como é que não morreste, ao cair em cima do carro e ainda levar com a gorda da Maria em cima!

O que é que se passou? - Perguntou João ainda meio atordoado.

Olha, caíste ali da janela, a Maria ainda vinha 'enganchada' em ti, com o barulho toda a gente veio à rua ver o que se passava, viram-vos aqui nestes propósitos, foram chamar a Elsinha e, nos 10minutos que aqui estiveste desmaiado, elas estão para ali aos estalos, armadas em Castelo Branco e Zéze Camarinha! - contou Bertolino, com um sorriso de orelha a orelha, adorando toda aquela confusão! Afinal de contas, João já lhe tinha roubado uma namorada -  a formosa Leonilde - e isto era a melhor vingança que podia desejar.

João sentou-se no tejadilho do velhinho Ford Cortina vermelho e viu uma cena completamente surreal: uma noiva e uma mulher nua - apenas com as partes tapadas por um gato (como é que o gato ali se aguentava) - a agrediam-se com fervor. À sua volta, uma multidão de pessoas, umas vestidas para um casamento, outras ainda com os pijamas de domingo, assistiam - com os telemóveis em riste, gravando a cena - ora apreensivos, ora eufóricos. Quando João, finalmente, desce do carro, vê-a. Ali, entre os pés das duas mulheres que se guerreavam por ele, sujeita a levar um pontapé e a desaparecer de novo.

Paaareeem!!!!! Já chega! - Gritou João

Todos se viraram para de onde tinha vindo aquele grito. Todos viram um homem nu, com o que parecia ser um amendoim entre as pernas. João avançou em direção a Maria e Elsinha, que tinham ficado estáticas a meio de um puxão de cabelos, enquanto a multidão o seguia com o olhar. Ao chegar perto delas, baixou-se e agarrou firmemente na Chave que teimava em lhe fugir. Depois, ergueu-a bem alto, fazendo-a brilhar pelo sol. Enquanto todos estavam neste transe, imaginando o nascimento do Simba, Elsinha desperta para a realidade e, vendo João ali tão perto, assenta um real biqueiro nos principescos tomates de João. Ao mesmo tempo que solta um uivo de dor, a Chave voa-lhe das mãos, acertando na testa de Bertolino, fazendo ricochete para o retrovisor do Cortina, voando, depois, em direção à tampa do esgoto.


(Continua)

14 comentários:

  1. Não mataste o homem, ufa! Já estou mais descansada. ;)
    Gostei muito. Boa ideia, essa de levares de volta as personagens para o episódio mais divertido da história.
    Agora estou curiosa por saber onde parou o raio da chave.

    Mais uma vez, obrigada Mustache por teres aceite o desafio. E ainda bem que o aceitaste. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas olha que tive de me conter para ele se manter vivo. :)
      Também achei que seria bom a história voltar para coisas mais engraçadas, que está aí a chegar o bom tempo e queremos é ver pessoas em pelota! :D

      Não precisas agradecer. :)

      Eliminar
  2. Caro Mustache,
    Gostei de ler este seu capítulo. A parte do nascimento de simba está genial.
    Cumprimentos,
    Outro Ente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se consegues visualizar a cena, o meu trabalho está feito. :)

      Eliminar
  3. Valeu a pena esperar para ler mais um capítulo :)

    ResponderEliminar
  4. ...e lá foi mais um capítulo...

    Estava para aqui a cogitar acerca do que dizer, mas acho que vou ficar calado, que a mim ninguém me cala!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Agora é ver se chega mais algum. :)

      Diz, fala, aqui todos são livres de dizer tudo, até ofender-me! :)

      Eliminar
    2. ...não vale mesmo a pena! Acredita!

      A liberdade tb encerra a responsabilidade... LOL

      Poderia, quanto muito, dizer que gostei da escrita mas fiquei com pena...
      ...mas, como dizem os brasileiro, pena quem tem é galinha, portanto isso faria de mim um galináceo...
      ...o que por si só é uma ideia estranha, pelo menos para mim.
      Portanto...

      :)

      Eliminar
  5. O texto está óptimo, a reviravolta está interessante. Talvez seja melhor assim , seguir a linha do meu texto era provavelmente demasiado “dark” para a esta história…

    Parabéns pelo bom trabalho,
    FATifer

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas olha que a minha primeira ideia foi matar o pobre rapaz com requintes de malvadez. A Moustache é que me disse logo que não. :D

      Eliminar
    2. Confirmo. Não quero o gajo morto. Ponto. :p

      (então, já passaste a batata quente?)

      Eliminar
  6. Atão mas isto morreu aqui?

    :(

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Infelizmente, todas as pessoas que convidei a continuar, declinaram. Por isso, não sei que fazer.

      Eliminar

Não é por nada, nem quero influenciar ninguém, mas diz que quem comentar neste blog, é uma pessoa espetacularmente espetacular!