quarta-feira, 2 de abril de 2014

De mãos dadas..

Sentados na esplanada, conversavam de mão dada. Sempre dada. Dedos entrelaçados, presos uns nos outros, como a videira que cresce tronco acima. O mundo deles resumia-se áquela mesa e áquelas duas cadeiras. Quem quer que passasse por perto, imediatamente se tornava invisivel, desaparecia para outra dimensão. Ninguém mais tinha autorização de entrar naquele mundo, apenas por eles povoado. E, tal como no nosso mundo, no deles também o tempo passava. De forma diferente. Não havia segundos, nem minutos, horas, dias ou semanas... Apenas estações do ano. Estações estas, espelhadas na expressão dela. Só na dela. Era ela que comandava o tempo naquele mundo. Naquele mundo que se estava a destruir. O mundo anteriormente perfeito, apresentava-se agora repleto de imperfeições. O ínicio do fim começou com o frio triste do Outono, com a sua expressão grave de quem adivinha a tempestade que se aproxima. O Inverno chegou e, com ele, as primeiras chuvas. Aquelas nuvens castanhas acumularam água e, quando já não era mais possivel contê-las, lágrimas salgadas rolaram pela sua cara abaixo. O fim tinha chegado com tanta força que o mundo que era só deles começou a abrir brechas para o mundo exterior, o dos comuns mortais. Depois da tempestade, veio a calma, a serenidade, a Primavera. A pouco e pouco, a chuva deixou de cair. A pouco e pouco, as flores começaram a espreguiçar-se em direção ao sol. A pouco e pouco, timidos sorrisos voltaram a surgir no seu rosto, ainda marcado pelos rastos dos rios de água que outrora o percorreram. E, tal como em todas as Primaveras, ainda houve momentos de chuva, ainda houve lágrimas que morreram em sorrisos. Mas o Verão acabou por chegar. Sorrisos abertos e calorosos preenchiam agora aquele mundo que, continuando a ser só deles, estava prestes a ficar deserto. Agora já havia segundos e minutos e horas. O tempo, agora, passava de igual forma ao mundo externo. Sabiam que, daí a alguns minutos, cada um seguiria um novo caminho, um novo rumo em direção a um mundo novo. O mundo deles acabou por ser invadido pelo mundo exterior. Pequenas gotas de chuva obrigaram-nos a sair daquelas cadeiras, a apressar a sua separação. Levantaram-se e caminharam juntos durante mais algum tempo, até que, depois de um último abraço que incorporou todas as estações do ano, aquelas mãos se separaram.



Eu, observava-os ao longe. Gosto de observar. Gosto de imaginar o que dizem, o que pensam, o que sentem. Gosto, acima de tudo, de tentar perceber tudo através das expressões e dos seus comportamentos. E, percebendo que o mundo deles estava a terminar, não consegui não ficar impressionado com o facto das suas mãos nunca se terem largado. Estiveram juntas do inicio ao fim, no bom e no mau. Faz-me acreditar que nem todos os fins têm de ser catastróficos, bastando que as pessoas construam o seu mundo na base do respeito, da amizade e do amor. Quando duas pessoas foram os únicos habitantes de um mundo, quer queiram ou não, mesmo após a separação, há coisas que ficam, mais ou menos latentes, mas que ficam. A separação não tem que ser uma coisa má. Pode até ser algo necessário para que o respeito, a amizade e o amor (se bem que outro tipo de amor) se mantenham. Para que os novos mundos de cada um possam orbitar na mesma galáxia, chegando mesmo a cruzarem-se. Quem sabe até se não podem, novamente, construir um novo mundo juntos.


11 comentários:

  1. E que história imaginaste tu sr. Moustache? E já agora.. que raio se passa contigo ou com outro alguém e que tem bebés pelo meio? Ainda nao percebi nada !

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    1. Menina Eva Maria, é Mustache. Sem o "o".. :)
      O que contei foi o que vi, apenas romanciei um pouco a coisa.. :)

      Em breve explico tudo.. ;)

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  2. Gostei muito da primeira parte do texto :)

    Quanto a separações, nunca passei por uma que achasse "boa". Só se tornam boas com o passar do tempo e o esmorecimento de todos os sentimentos. E, e...

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    1. Aconteceu mesmo.

      Quanto a separações, já tive de tudo: desde o "é bom que nunca mais te veja" até ao "és a minha melhor amiga". Mas em todas elas, houve sempre um momento de tristeza.

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  3. Belo texto, com imensas virgulas bonitas! ...tu és estranho Moustache!

    Aperto

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    1. Obrigado, Baby! :)

      Sim, sou bastante esquisito e estranho.. :)
      Trata-me antes por Mustache. ;)

      Beijo

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    2. :) desculpa o O a mais, é um bigode decorado! :P

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  4. Esquece a C. D. e dedica-te a estes textos bri-lhan-tes! :)

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    1. A C. D. já acabou.. ;)

      Vou seguir o teu conselho. :)

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  5. Ler isto hoje bateu forte...

    Já tive separações "boas", em que se conseguiu manter inicialmente uma relação cordial e posteriormente se voltou a reerguer a amizade. Mas as relações mais intensas acabaram mal...

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    1. Acima de tudo, acho que o importante é o que se foi em conjunto e a forma como se termina. É isto que vai definir o que acontece no final da relação. Às vezes não faz sentido terminar uma amizade apenas porque já não há amor.

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Não é por nada, nem quero influenciar ninguém, mas diz que quem comentar neste blog, é uma pessoa espetacularmente espetacular!